Professores Pais e Partos

Agudos – 30/03/2007 – Jornal da Cidade de Agudos

Meus alunos do primeiro ano de pedagogia da FAAG estão passando por um momento desesperador… Estão sentindo medo, angústia, desesperança. Descobriram ainda há pouco que o papel do educador é muito, muito importante, que ele é modelo, que ele atua em prol da transformação ou da manutenção da sociedade e suas estruturas rígidas e classistas.

A eles está sendo revelada de forma ás vezes chocante que seu papel é indefinido, mas amplo, quase infinito (ensinar, aprender, mostrar, acompanhar, dar exemplo, transformar, manter, disciplinar, conter, estimular…ufa!). E que seu tempo de formação é eterno e que seus atos e palavras permanecem influenciando e movendo pessoas e frustrando pessoas até seu último suspiro, ou pior, ficam passando de geração em geração através de seus alunos e herdeiros.

Quem não ficaria assustado? Quem não se sentiria tentado a mudar de curso, de planos?

Penso nas mulheres grávidas e seus companheiros… Há pouco passei por este momento. E vejo que ser educador é estar eternamente grávido.

Uma mulher grávida surge de duas ocasiões: do desejo de ser mãe ou da imperatividade da natureza que a força a tornar-se mãe quando a pílula ou o preservativo, ou melhor o juízo falha…

Aí geralmente ocorrem coisas inesperadas. Que ninguém explica.

Primeiro surge o sonho. Pensamos que nosso bebê será o mais lindo do mundo, que terá melhores oportunidades, educação, saúde etc mesmo nesse mar de lama e pobreza que é o Brasil. E nos preparamos para guerrear por qualquer um desses elementos e por muitos outros mesmo quando nossa única arma é o amor, é a voz, é o pensamento positivo de brasileiro sonhador.

Depois surge a preocupação. Primeiro com o enxoval que protege do frio, que cobre, o berço, o chá pra cólica. Inacreditavelmente conseguimos tudo isso. Seja na lida dura do trabalho, seja na muito mais difícil situação do pedir. Depois nos preocupamos com o futuro que vai certamente escapar das nossas mãos de mãe… E para isso nos preenchemos de esperança, de disponibilidade para estar junto, de noites ao lado do telefone.

Mas durante todo esse longo, interminável caminho fica o amor, a responsabilidade, a gana de apresentar ao filho alguém pelo menos bom. Bom no sentido do coração.

E me vejo assim grávida e parindo todos os dias. Grávida sonhadora, esperançosa e guerreira pronta pro que der e vier. Parindo meus filhos, cada dia de um jeito em cesáreas vindas das pequenas liberdades: o dormir fora pela primeira vez, o sentar sozinho, o deixar o peito…

E é isso que passo para meus amedrontados alunos, na medida em que lhes digo que seus alunos serão eternos como filhos. E ser professor é estar eternamente grávido. E é isso que espero deles.

Espero que engravidem cotidianamente planejada ou repentinamente de seus alunos, do futuro. Espero que sonhem, idealizem muito e que idealizando tornem-se guerreiras como só as mães conseguem ser.

Espero que se preocupem e que suas salas de aula lhes tirem o sono e os fios de cabelo escuros como só um quinto mês e a descoberta do sexo do bebê o fazem. E espero que vivam cientemente a dor do parto.

Do parto da primeira letra de um analfabeto, do primeiro por favor de um adolescente rebelde e do dolorido e inesquecível fórceps que é o primeiro “não concordo com você professora!”.

A você leitor pai e leitora mãe sei que faria tudo de novo. Pois faça e não me tome ao pé da letra… não estou aqui motivando o aumento de grávidas de Agudos!!

Estou sim motivando que engravidem de novo dos filhos que já tem, que sintam por ele amor e boas expectativas, que o esperem, o acompanhem, o tomem pela mão. E que vivam os partos do dia-a-dia com o mesmo sorriso do momento que o médico disse: “Nasceu!”.

Alguém ainda me pergunta se vale a pena ser professor? Tanto quanto ser mãe.

Beijo.

Juliana Araújo